Com a Remington Rand. Ele aprendeu as primeiras lições de datilografia com a mãe, dona Francisca

PORTO VELHO – Na contramão de muitos jovens que deixavam a zona rural para estudar e não retornar, Antônio Figueiredo de Lima permaneceu mais tempo aprendendo e ajudando o pai João Figueiredo de Lima no plantio e na colheita de laranja, café, amendoim, arroz e milho. Seu João também criava suínos num sítio em José Bonifácio [norte paulista].
Durante muito tempo, Rondônia resumia-se a investimentos públicos para plantar as bases do futuro Estado. Na sede da Escala Engenharia, na Avenida Calama são visíveis a marca de sua juventude.

Ali ele guarda a antiga máquina de escrever Remington Rand e o livro com lições de datilografia. Aprendeu com a mãe, dona Francisca, já falecida. Porto Velho e algumas regiões do interior conheceram bem o trabalho de sua empresa, cuja folha de serviços incorpora diversas frentes de serviços a partir de 1982.

Nesta Entrevista da Semana, Figueiredo lembra que ao chegar a Rondônia, por um período deparou com o ouro na condição de moeda. Era o ciclo do garimpo, muito intenso nos anos 1980. “Certamente, a diversificação veio consolidar projeções feitas anteriormente por órgãos de planejamento e pela Superintendência de Desenvolvimento do Centro-Oeste Brasileiro (Sudeco), de quem o extinto Território Federal de Rondônia dependia para ativar as principais obras no interior”, assinalou.

Antônio Figueiredo, na sede da Escala Engenharia

EXPRESSÃO RONDÔNIA – O menino Antônio Figueiredo morava no sítio. Seu primeiro trabalho foi ali mesmo? 

Antônio Figueiredo – Sim. Eu colocava na garupa da bicicleta uma caixa de madeira cheia de limões galegos e ia vendê-los aos sábados na cidade Fazia até seis viagens por dia. Colhia esses limões no Sítio São João, do meu pai, lá em José Bonifácio.

O senhor chegou bem moço a Rondônia?

Cheguei aqui com 26 anos de idade e no dia 23 de março de 2016 inteirei 61. Minha esposa, Vera de Oliveira Figueiredo, que também é engenheira, ingressou na Secretaria Estadual de Obras, depois passou no concurso da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), e lá trabalha até hoje.

Fale um pouco a  respeito de sua família.

Sempre repito que considero a família o sustentáculo, porque ela fortalece tudo o que fazemos. Sou caçula dos 11 filhos do casal João Figueiredo de Lima e Francisca dos Santos Lima, e fui o único nascido na cidade. Os demais nasceram na Fazenda Lagoa, propriedade da família, nos arredores de Rio Preto. Vim ao mundo numa casa da Vila Santa Cruz, a um quarteirão do Estádio Mário Alves de Mendonça [do América Futebol Clube], e tempos depois assisti a demolição dele, quando aquela área foi vendida a um grande grupo comercial. Meus pais vieram a Porto Velho quando nasceu nossa filha Marília. Ela é advogada da Caixa Econômica Federal. Depois nasceram Maria Isabel, dentista, que se casou e mora em Rio Branco (AC) e Antônio Figueiredo Filho, advogado em Porto Velho. Os três e filhos e os cinco netos são rondonienses, terra que me adotou. A experiência de vida é a minha maior riqueza, e a família é mesmo o patrimônio que me traz alegria e satisfação.

Família Figueiredo. Antônio Figueiredo de Lima e Vera com Marília, Maria Isabel e Antônio Figueiredo Filho

O primeiro emprego veio quando?

Eu tinha 13 anos e me empreguei na Casa de Joias Barbosa, em frente à Praça das Andorinhas, em São José do Rio Preto. Era o negócio de seu Augustinho, e ele assinou a minha carteira de trabalho. Ali eu trabalhei dois anos. Pouco tempo depois, eu ingressei no quadro de funcionários do Banco Crefisul de Investimentos e recebia convite para trabalhar na sede do grupo, no Edifício Joelma (*), em São Paulo. Não quis ir. Em Rio Preto, já escriturário, surpreendi meu pai: com 17 anos fiz o Tiro de Guerra do Exército, deixei o Banco Crefisul e voltei para o sítio.

O senhor é contador, estudou engenharia e dona Vera também é engenheira. Conheceram-se na faculdade?

Eu estudei contabilidade e na sequência ingressei na primeira turma de cem estudantes da Faculdade de Engenharia de Rio Preto, onde encontrei Vera, que também iniciava esse curso. Com ela integrei a primeira turma de engenheiros, com 50 formandos. A gente lutava pela construção do primeiro laboratório da Faculdade e nos formamos em 1981. No ano seguinte, durante a recessão econômica no País, cheguei a pedir empregos em grandes construtoras, em São Paulo e no interior, mas não tive êxito…

Governador Jorge Teixeira de Oliveira, Teixeirão

Ouviu falar de Rondônia naquele período?

Sim, tive notícias que o governador Teixeirão convidava diversos profissionais para trabalhar em Rondônia. Não demorei a planejar a viagem para cá, da maneira como faziam todas as pessoas migrantes atraídas pelo “novo” e que alguma vez despertaram para a vida amazônica. Eu viajei pela BR-364, enfrentei atoleiros na região de Pimenta Bueno, e depois de um mês em Porto Velho telefonei para a vinda de Vera. Viemos para ficar uma temporada e aqui estamos até hoje.

Como o senhor iniciou sua trajetória de empreiteiro com o Governo de Rondônia?

Faltavam especialistas para enfrentar os desafios amazônicos. Em 1986 eu criei a Escala Engenharia, inicialmente atuando no ramo de infraestrutura, saneamento e estradas. O governador Teixeira estava sempre sempre presente nas frentes de obras. Elogiava, às vezes demonstrava descontentamento com alguma falha, mas estimulava a equipe da Escala Engenharia. Num Estado onde tudo a ser feito, o dinamismo do governador visionário encurtava distâncias, e isso foi muito gratificante.

“Ele descia de helicóptero nas clareiras, vinha ao nosso encontro e almoçava algumas vezes com os trabalhadores, e eu, moço novo, conversava com ele de igual para igual”, conta Figueiredo.

Entramos na floresta do Projeto de Assentamento Buritis, abrimos picadas na mata, e os topógrafos marcavam o eixo das futuras estradas. Fizemos isso também em Ariquemes e Jaru, e mesmo com poucos profissionais não hesitamos: arregaçamos as mangas e graças a Deus, vencemos aquela fase de grandes desafios.

O que o Interior mais precisava nos anos 1980?

A Capital e o Interior exigiam obras em diferentes setores. Tudo era um desafio, especialmente no Interior. Nossas máquinas trabalhavam em terra bruta, fazíamos o melhor na topografia e nas obras de asfaltamento, energia elétrica, esgoto, drenagem, meio-fio, tratamento d’água, telefonia, edificações comerciais, habitações, pavimentação de vias públicas, canalização de córregos, laboratórios, postos de saúde, escolas, quadras esportivas e outras obras.

Se existiram dificuldades, facilidades vieram em igual tamanho, e nós soubemos aproveitá-las.

Fazendo tudo isso, a Escala foi pioneira de cidades, na prática e no direito…

Sob esse aspecto, sim. O governo havia criado os Núcleos Urbanos de Apoio Rural [NUARs] supervisionados pela extinta Companhia de Desenvolvimento Agrícola de Rondônia (Codaron). Coube-nos a missão de fiscalizar obras da Azevedo Terraplanagem, Concic, Covan, Cota e Termac.  Abrimos diversas estradas –hoje asfaltadas – e construímos em Machadinho do Oeste o primeiro prédio da Companhia de Armazéns Gerais de Rondônia (Cagero).

Igarapé da Encrenca, em Rolim de Moura, uma das obras que muito exigiu da Escala Engenharia

O que o trabalho na floresta lhe ensinou?

No final do Planafloro [Plano Agropecuário e Florestal de Rondônia, parcialmente financiado pelo Banco Mundial e desenvolvido durante a década de 1990 eu percebia que as carências de Rondônia me davam respostas imediatas. Eu raciocinava: aventura não é o meu forte, mas a gente tem que ser do tamanho do nosso sonho, e tendo saúde, e trabalhando ele se realiza. Nós realizamos.

A partir dali, como o senhor analisa o crescimento de Rondônia?

Quando diversificamos as atividades profissionais, chegamos a assumir simultaneamente 13 obras de infraestrutura, entre elas, captação e distribuição domiciliar de água. Construímos sistemas de abastecimento de água e coleta e tratamento de esgoto em vários municípios de Rondônia. De lá para cá, eu me impressionei com o crescimento da atividade agropecuária, que proporcionou a ampliação do número de frigoríficos e o surgimento de novos curtumes e laticínios.

Sempre digo que o futuro em Rondônia já chegou e não tem volta, e a fase de industrialização impulsionou a construção civil, porque essas obras demandam novas plantas industriais, pátios e prédios.

Rondônia diversificou-se…

E muito! Já ultrapassou a marca de 800 agroindústrias espalhadas pelo Estado. Elas foram fruto da organização do homem em território amazônico. Quando cheguei, por um período me deparava com o ouro na condição de moeda. Era o ciclo do garimpo, muito intenso nos anos 1980. Certamente, a diversificação veio consolidar projeções feitas anteriormente por órgãos de planejamento e pela Superintendência de Desenvolvimento do Centro-Oeste Brasileiro (Sudeco), de quem o extinto Território Federal de Rondônia dependia para ativar as principais obras no interior.

Aos 61 anos, Figueiredo contempla a série de obras construídas em Rondônia

A Escala Engenharia construiu bastante. Faça uma síntese desse trabalho.

Começamos a usar nossa força de trabalho no setor habitacional, construindo residenciais para pessoas de baixa renda. Grandes áreas urbanas adquiridas, projetos urbanísticos submetidos eram submetidas à apreciação da Caixa Econômica Federal, o agente financiador dos empreendimentos. Isso resultou em milhares de unidades construídas, e condomínios fechados horizontais e verticais.­­­­­­­ Eu destacou 11 empreendimentos residenciais no rol das obras na Capital: Vila Bella Aquarius, Riviera, Areia Branca, Vila Verde, Vitória Régia, Morada do Sul, Parque dos Ipês, Araguaia, Triângulo, e o Edifício Brasília, no início da verticalização de Porto Velho. Ao mesmo tempo, erguemos escolas públicas estaduais, unidades de saúde, prédios para instituições públicas, complexos esportivos para o Sest/Senat (Serviço Social do Transporte e Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte), escolas para o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial).

Os negócios cresceram e a Fiero apoiou o segmento da construção Civil em Rondônia, por meio de convênios firmados entre o segmento e o Senai, com vistas a qualificar a mão de obra do setor.

Chegamos a ter quinhentos funcionários. Devido a baixa oferta de mão de obra qualificada, treinamos muita gente em parceria com o Senai e investimos nos canteiros, preparando turmas durante 15 a 30 dias, mesmo sabendo que alguns  depois de qualificados, poderiam ir trabalhar  para empresas concorrentes. A partir de 2008, a construção das usinas hidrelétricas Santo Antônio e Jirau, ambas no Rio Madeira, exigiam qualificação da mão de obra e maior atenção voltada à redução de problemas ambientais. Dessa maneira, a Escala Engenharia aplicou métodos de combate ao desperdício e controle de materiais inservíveis, algo que já lhe permitira conquistar em 2004 a certificação do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade no Habitat.

(*) Com 25 andares [dez de garagem], o Joelma, atualmente denominado Edifício Praça da Bandeira, foi inaugurado em 1971. Fica na Avenida Nove de Julho, em São Paulo. Tornou-se nacional e internacionalmente quando, em 1º de fevereiro de 1974, um incêndio provocou a morte de 191 pessoas e deixou mais de trezentas feridas.

Na Reserva Extrativista do Curralinho

 ONDE ATUA ESCALA ENGENHARIA 

Gaúcho de Erechim o diretor técnico  e de operações, Plínio César Floriano Ronchetti mudou-se para Porto Velho em 1985. Ele alinha os municípios nos quais a Escala atua desde o início de suas atividades: Alvorada do Oeste, Ariquemes, Cacoal, Campo Novo de Rondônia, Costa Marques, Guajará-Mirim, Itapuã do Oeste, Jaru, Ji-Paraná, Machadinho do Oeste, Monte Negro, Nova Mamoré, Ouro Preto do Oeste, Pimenta Bueno, Porto Velho, Presidente Médici, Rolim de Moura, Santa Luzia, Urupá, Vale do Anari e Vilhena.

PRINCIPAIS OBRAS CONSTRUÍDAS

Unidades habitacionais
4 mil
Total de áreas construídas
240 mil metros quadrados
Áreas urbanizadas
1 milhão de m²
Ruas pavimentadas
250 mil m²
Redes de distribuição de água
250 mil m
Redes de coleta de esgoto domiciliar
100 mil m
Redes de distribuição de energia elétrica
60 mil m
Ligações domiciliares de água tratada
18 mil unidades
Ligações de coleta de esgoto domiciliar
7 mil unidades

CARLOS ARAÚJO e MONTEZUMA CRUZ

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