PORTO VELHO – Mesmo alegando que “tem no DNA o compromisso com Rondônia e com Porto Velho”, o advogado Amadeu Machado, ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado e ex-procurador jurídico do Município declinou do convite feito pelo prefeito Hildon Chaves para assumir a Secretaria da Fazenda. Se aceitasse, teria que se afastar da advocacia, à qual voltou a se dedicar ao se aposentar do TCE em 2005.

O cargo continua sendo exercido pelo secretário Luiz Fernando Martins.

Amadeu Machado escreveu carta ao prefeito, dizendo-se prestigiado e valorizado. Lembrou que atualmente patrocina “demanda de elevada monta”, na qual o Município de Porto Velho consta como réu. A ação está em grau de recurso no Tribunal de Justiça do Estado.

Hildon Chaves
Amadeu Machado

Recorrendo a um antigo dito popular, o advogado disse acreditar que a voz das ruas lhe atribuiria “um lance de esperteza” e certamente haveria o comentário: “Puseram a raposa para cuidar do galinheiro”.

Conforme alegou, sua desistência do cargo evitaria “contaminar” o projeto político do prefeito. Elogiou Hildon Chaves: “Basta que continues a te caracterizar como fato novo e que tua inserção no meio político seja caracterizada pelo diferencial que te levou ao cargo de Prefeito da nossa cidade”.

A carta de Amadeu Machado ao prefeito Hildon Chaves

 

Que situação danada!
Tenho no meu DNA o compromisso com Rondônia; com a nossa Porto Velho.Terra dadivosa à qual me apeguei e que me adotou com imenso carinho há 44 anos.

Teu convite para integrar a equipe de comando do nosso Município me deixou emocionado, orgulhoso e honrado.

Pensava eu que, já bem próximo de completar sete décadas, estaria lançado ao cesto dos descartes, pois que a idade promove limitações e determina esforços redobrados, com resultados questionáveis para o ancião.

Estou vivendo um intenso impasse desde que me foi encaminhado o convite.

Muitos dias se passaram e remoí todas as alternativas, projetando simulações várias, de maneira tal que pudesse encontrar forma de conciliar situações.

Sabia que, aceitando o teu convite, operaria em algum prejuízo de ordem profissional, na medida em que deveria afastar-me da advocacia.

Meu escritório, que com ingente sacrificio reativei após minha aposentadoria em 2005, depois de haver me afastado por longos 20 anos, voltaria a registrar minha ausência e meu filho, que ombreia as tantas demandas que patrocinamos, por certo se ressentiria do meu afastamento.

Certo, também, que pela lei natural da vida, meu tempo por aqui vai escasseando e não me sobra espaço de manobra para projetos de médio prazo.

Mesmo assim, já me encaminhava para aquiescer ao convite, porque me senti prestigiado, valorizado, acrescendo que a gratidão que tenho por esta terra, me faria encarar o desafio, mesmo com as consequências negativas antevistas.

Mas, surgiu uma situação que me fez recuar, meu caro Hildon, e ela é irremovível.

Eu patrocino uma demanda de elevada monta, na qual o Município de Porto Velho consta como réu. A ação está em grau de recurso no Tribunal de Justiça do Estado e, repito, o valor envolvido é muito expressivo.

Bem sei, e já vi muito disso, que em situações que tais, é elaborada uma pantomima. O profissional requisitado formula uma ostensiva renúncia ao mandato que o cliente lhe outorgou, passando a se considerar ética e legalmente desimpedido daquele compromisso profissional, circunstância que o habilita a assumir o cargo.

Possível que, sendo uma pessoa honesta, ela de fato se desvincule daquele compromisso. Todavia a voz das ruas há de cogitar seja um lance de esperteza e surgirá a frase destrutiva – “puseram a raposa para cuidar do galinheiro”.

Assim, temos que considerar a surrada expressão sobre a mulher de César, o Imperador Romano, quando se diz que “à mulher de César não basta ser honesta; ela tem que parecer honesta”.

O que pretende esta frase e como a devemos encarar?

Simples, mesmo que o assessor escolhido nada faça que o beneficie, ele não evitará a maledicência natural que envolve administração pública, permeada com embates políticos.

E numa circunstância como esta, lá se vai a honra de um e outro (nós dois); o projeto político seu pode ser contaminado e não quero seja eu o vetor desse processo, pois auguro que terás um futuro brilhante pela frente. Basta que continues a te caracterizar como fato novo e que, tua inserção no meio político seja caracterizada pelo diferencial que te levou ao cargo de Prefeito da nossa cidade.

Penso que em curto prazo pode haver uma decisão no processo, pois que ele está no gabinete do Relator há mais de ano. Assim que houver a manifestação judicial, suponho que possa estar criado um ambiente mais saudável e propício para que retomemos nosso diálogo, se ainda for de seu interesse, é claro.

Por ora resta-me agradecer-lhe a deferência do convite e dizer-lhe da minha tristeza em ter que dele declinar. Ofereço-lhe, em contrapartida minha solidariedade e apoio incondicional à sua administração, disponibilizando-lhe, em favor da nossa cidade, o conhecimento e a aptidão que possuo no encaminhamento e solução de fatos e situações que surjam no curso de sua gestão, colocando sempre o interesse público acima dos quereres pessoais.

Muito obrigado, amigo Prefeito e sucesso nessa gigantesca e árdua tarefa de administrar nossa problemática Porto Velho.

Grande e afetuoso abraço
Amadeu G. M. Machado