No ar desde o início do mês a campanha Abril Verde, idealizada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), em parceria com dezenas de entidades, entre elas os Conselhos de Medicina, chama a atenção da sociedade para um tema que passa ao largo dos grandes debates na sociedade: o risco dos acidentes em ambiente laboral.

As ocorrências de acidentes de trabalho incluem doenças relacionadas ao trabalho, quer dizer, aquelas contraídas devido à exposição a fatores de risco, assim como as desencadeadas ou agravadas pelas condições de trabalho. Em 2014, último dado disponível, foram contabilizados 704,1 mil acidentes de trabalho no País.

Os registros dão conta de 2.783 mil mortes e 251,5 mil afastamentos por mais de 15 dias. Os números mostram que a predominância de registros envolvendo homens jovens. Do total de casos, em nível nacional, 68% acometeram indivíduos do sexo masculino, a maior parte na faixa etária de 25 a 29 anos (80,5 mil).

No mesmo período, 225,2 mil trabalhadoras foram vítimas de acidentes ou de doenças relacionadas ao trabalho, ou seja, 32% do total. A faixa etária predominante dentre as mulheres foi de 30 e 34 anos.

Em números absolutos, e considerando o recorte regional, a maior incidência foi registrada no Sudeste (379,4 mil), seguido pelo Sul (157,3 mil), Nordeste (85,7 mil), Centro-Oeste (50,3 mil). O menor número de casos – em termos absolutos – foi contabilizado na região Norte (31,2 mil).

O Abril Verde é um alerta para a sociedade para os acidentes e as doenças que resultam em diminuição da capacidade produtiva. Mais do que isso: coloca em evidência situações que extrapolam o ambiente de trabalho e podem implicar em comprometimento da qualidade de vida.

No entanto, mais que sensibilizar a sociedade para este tema é fundamental a adoção de medidas que façam a diferença neste contexto. No caso, a prevenção é a melhor forma de honrar a memória dos que faleceram ou ficaram sequelados em função da exposição aos riscos em ambiente de trabalho.

É preciso que governo, empresas e mesmo trabalhadores encarem com seriedade a adoção de medidas preventivas, como uso de equipamentos de proteção ou cuidados no uso de máquinas e outros equipamentos. Mas é preciso mais.

Além de cobrar a adesão aos programas de prevenção a riscos de acidentes, é necessário exigir a observação – por patrões e empregados – aos critérios previstos na lei e que tratam do tema. Não se pode ser tolerante com empresários e trabalhadores negligentes que expõem seus funcionários e colegas à insegurança e às doenças ocupacionais.

Diante da possibilidade de fazer escolhas que mudam destinos para sempre, que, juntos, possamos optar por um futuro livre dessas consequências dos acidentes de trabalho. É assim que construiremos uma sociedade que valorize o trabalhador e seu papel na sociedade.

Doutor em Bioética pela Universidade do Porto
Diretor do Conselho Federal de Medicina