Hamed Kassem
Hamed Kassem em frente ao Almanara, o mais tradicional restaurante árabe de Porto Velho /Fotos Tales Araújo

CARLOS ARAÚJO

Em árabe, Almanara significa lugar iluminado. É também como os árabes chamam os faróis instalados no Mediterrâneo para guiar os navios e outras embarcações.

Ao adentrar a história de uma das mais tradicionais famílias de Porto Velho, os migrantes libaneses que chegaram a essa região nos anos 1950 percebe-se que, mesmo de forma inconsciente, o nome do restaurante Almanara, da Família Hijazi, instalado no centro histórico de Porto Velho desde 1965, também guarda relação com este significado.

O personagem desta Entrevista da Semana é Hamed Kassem Hijazi, o Brimo do Almanara como muitos o cumprimentam ao adentrar ao restaurante de comida árabe mais antigo de Rondônia. E o segredo do negócio, ele não esconde, é ser uma empresa familiar. “Eu tenho certeza que é isso. No Almanara, temos funcionários que se aposentaram aqui, depois de trabalharem longos anos. Todos sempre ficam anos e somos uma família que entende o que cada um quer e que cada um precisa. Somos uma família para cuidar da sua família”, reitera Hamed (pronuncia-se Hámed). Ele diz não se preocupar com a concorrência que se instalou na cidade nos últimos anos e assegura que a tradição do Almanara garante sempre o retorno de sua clientela.

Hamed Kassem
Hamed conta história da família ao jornalista Carlos Araújo

Hamed Kassem Hijazi migrou da cidade de Karaon, região do Vale do Beka, no Centro do Líbano, em 1959, aos 20 anos de idade, para fugir de conflitos e guerras a procura de um oásis. “Como tínhamos parentes pioneiros aqui no Brasil, falamos-nos e eles disseram que no Brasil havia terra verde, terra boa e um povo bacana, um povo amigo – e vocês podem viver tranqüilos aqui. E aqui chegamos e fizemos amizades sólidas. É por isso que de uma maneira carinhosa chamamos todos de primos”, explica Hamed, justificando a charada de o porquê os árabes tratam os brasileiros como parentes.

Aos 75 anos, casado com a amazonense Maria de Fátima Cavalcante Hijazi, pai de quatro filhos e avô, “Brimo”, conta, nesta conversa com o jornalista Carlos Araújo, a aventura da viagem até o Brasil, sua chegada a Porto Velho em um avião Catalina da Panair, sem falar uma única palavra em português e tendo o irmão mais velho Mohamad como referência.

“O desembarque do avião era ali onde hoje está o ginásio Cláudio Coutinho e, sem falar nem entender nada em português, apareceu um taxista e perguntou-me se estava vindo do Líbano. Não entendi direito, mas respondi yes, além do árabe eu só falava em inglês. Então ele me colocou no taxi, um jipe, e me trouxe até a “Casa Dois Irmãos’, aqui, próximo ao Palácio do Governo. Era domingo e a casa estava fechada, mas desci e empurrei a porta, que estava entreaberta. Foi uma emoção só ao encontrar o irmão que há tempos não via”, conta, como se não houvesse transcorridos 55 anos.

Hamed Kassem
Judeus e árabes viviam unidos até a criação de Israel, levando instabilidade a região

O outro segredo do Almarana, além de ser um negócio familiar bem ao estilo libanês, confessa Hamed Hijazi, é o fato de a comida ser feita sempre pela mesma mão e da mesma forma. Ele garante que mesmo passado 55 anos, desde a primeira vez que entrou na cozinha do Almanara para preparar charutos, arroz com lentilha ou Kafka, sempre o faz com muito carinho, como se estivesse cozinhando para sua família. “Para mim, é uma alegria saber que nosso tempero vem agradando tanto há várias gerações de rondonienses e brasileiros que por aqui passam”, afirma ‘Brimo’.

Outras reminiscências emergem dessa entrevista com um dos mais antigos comerciantes da capital rondoniense, um libanês absolutamente integrado à cultura e aos hábitos familiares brasileiros. Apesar estar no Brasil há 55 anos, Hamed ainda guarda saudades de sua terra natal, mas se diz triste com a violência, guerrilhas e guerras que assolam o Oriente Médio, conflagração que ele atribui às interferências das nações ocidentais que cobiçam as riquezas da região, segundo ele.

Expressão Rondônia – Hamed, qual é a origem da sua família?

Hamed Kassem – A origem da minha família é quase todo Libanesa. Primeiro vieram para o Brasil (Rondônia) um cunhado e uma irmã, e depois mais um irmão, antes de mim.

Hamed Kassem
“Quando cheguei a Porto Velho, desembarquei do avião ali onde agora é o ginásio Claudio Coutinho”.

Expressão Rondônia – Muitos anos antes?

Hamed Kassem – Em 1953.

Expressão Rondônia – Seis anos antes da sua vinda então.

Hamed Kassem – Veio um irmão meu primeiro, o Mohamad, que já é falecido, e em 1957, outro irmão também veio. E eu cheguei em 1959. Depois de mim ainda vieram outros, ou seja, nossa família toda se tornou Rondoniense.

Expressão Rondônia – Estão todos em Rondônia?

Dos que ainda estão vivos tem a maioria aqui em Rondônia, e dois em Campo Grande (MS).

Expressão Rondônia – O que moveu a sua família a migrar do Líbano para o Brasil, mais especificamente para a Amazônia?

Hamed Kassem – Sobre a nossa migração, era porque naquele tempo entre 1950 até 1960, o Líbano passava por uma fase política critica, de guerrilha mesmo, e as famílias decentes e honestas preferiram não se envolver. Preferimos migrar, viajar. E como tínhamos parentes pioneiros aqui no Brasil, nos falamos e eles disseram que no Brasil havia terra verde, terra boa e um povo bacana, um povo amigo – e vocês podem viver tranqüilos aqui. E aqui chegamos e fizemos amizades sólidas. É e por isso que de uma maneira carinhosa chamamos todos de primos.

Expressão Rondônia – A escolha de Porto Velho, após chegar ao Brasil, foi porque vocês já tinham parentes aqui?

Hamed Kassem – Não. Porto Velho foi indicado por amigos, pois naquela época era território do Guaporé, então era terra nova, onde as pessoas esperavam encontrar mais oportunidades. Como meus irmãos já estavam aqui e já tinham comércio aqui, quando chegamos ao Brasil, optamos vir para Porto Velho.

Expressão Rondônia – O senhor tem religião?

Hamed Kassem – Tenho, sou mulçumano graças a Deus. Não somos fanáticos. Somos uma religião democrata, e liberal, convivemos com todas as religiões. Eu já li a Bíblia, já li o Alcorão, e os dois indicam um só Deus, com algumas diferenças, claro.

Expressão Rondônia – O senhor não se identifica com os fundamentalistas, com aqueles que acham que está no Alcorão que quem não concorda com a religião deve ser destruído?

Não. O Alcorão, nós o consideramos a palavra de Deus, e o único livro sagrado que é a palavra de Deus é o Alcorão.

Os ensinamentos do Alcorão são a paz, a igualdade e a irmandade. Somos contra o racismo e contra esses noticiários que falam que os muçulmanos são terroristas ou bandidos ou malandros. Isso não é verdade, pois o mulçumano de verdade, não é assim.

Expressão Rondônia – O senhor concorda com a ação de grupos como Hezbolah ou Fatah?

Hamed Kassem – Hezbolah, Hamas ou Fatah não representam religião. São partidos, luta cada um luta pela sua causa. E o Hezbolah, o Hamas ou o Fatah são representantes do povo palestino, que foram destruídos, e expulsos, seja por Israel ou pela própria ONU, que permitira a expulsão desse povo, passando a viver sitiados nas fronteiras. Então, eles montaram grupos partidários para se defenderem de seus inimigos, aqueles que o expulsaram de suas terras. A Palestina mesmo sofre muito com isso hoje.

Expressão Rondônia – Voltando a Porto Velho, de onde veio à ideia e quando surgiu o Almanara?

Hamed Kassem – Quando chegamos aqui, primeiro tínhamos uma loja de armarinho que vendia tecidos, ‘Casa Aparício’ e ‘Casa Dois Irmãos’. Durante 15 anos eu também trabalhei com farmácia, por incentivo dos doutores Rachid, Jacob Atallah e do doutor Ary Pinheiro. Ai a ideia veio de toda a minha família. Quando chegamos fomos morar na casa do meu irmão. Éramos 15 pessoas na mesma casa. Então, minha cunhada, tinha uma mesa com 15 lugares e estávamos todos almoçando e minha cunhada falou uma palavra. Deus nos deu uma família grande, vamos precisar abrir um restaurante para nós. E o esposo dela perguntou por que não abrimos um restaurante? Então em 1965 abrimos, pois com o restaurante nós alimentamos a família e é uma fonte de trabalho também. Eu, a minha cunhada e o meu irmão mais velho começamos a trabalhar aqui nesse mesmo lugar. E aqui estou trabalhando até hoje.

Expressão Rondônia – Seu irmão mais velho é aquele que às vezes encontramos aqui?

Hamed Kassem – Não. Meu irmão mais velho Mohamad e sua esposa já faleceram, ou seja, dos três que tiveram a ideia do restaurante, dois já faleceram. E toda a família sempre ajudou aqui. Os filhos estudavam e ajudavam e hoje, mesmo formados, ainda ajudam aqui.

Expressão Rondônia – O que significa Almanara?

Hamed Kassem – Iluminação é o significado verdadeiro da palavra.

Expressão Rondônia – É de origem Árabe?

 Hamed Kassem – Em Beirute, capital do Líbano, tem uma região chamada Almanara e dentro do mar mediterrâneo foi construído um farol bem alto chamado de Almanara, que ilumina toda aquela região e que servia sempre de sinalização para os navios que navegavam pelo Mediterrâneo até chegar ao porto. Se não me engano, no Rio Grande do Norte e em outras regiões do Brasil também existem faróis parecidos com esse.

Expressão Rondônia – Então, em 1965 nasce o Almanara e toda a família passa a trabalhar aqui, mas sem prejuízo dos outros comércios. Os outros comércios continuaram funcionando?

Hamed Kassem – Continuaram. Até dois dos meus três irmãos sair de Porto Velho. Um foi para Ji-paraná e outro foi para Campo Grande. Então, ficou eu e mais um irmão. Mas, com o Almanara já tendo bastante movimento, tive que fechar a farmácia e trabalhar junto com ele aqui no Almanara.

Expressão Rondônia – Um restaurante de comida árabe é sempre um lugar de convergência, um local onde as pessoas se reúnem para comer e bater papo. O que Hamed já viu passar por aqui, muita reunião de políticos?

Hamed Kassem
“Por aqui já passaram todos os governadores, desde 1965. É uma casa da família rondoniense.”

Hamed Kassem – Bom, em primeiro lugar, eu quando cheguei a Porto Velho não falava uma palavra em português se quer. O avião que me trouxe me deixou no aeroporto Caiari, onde hoje está o ginásio Claudio Coutinho, e quem tirou a minha passagem, era o meu amigo Albertinho Lopes. Meus irmãos não sabiam quando eu iria chegar, ou seja, não sabia que eu havia chegado a Porto Velho. Desci do avião e fiquei olhando até que apareceu um senhor que me perguntou se eu estava vindo do Líbano, em português, e eu respondi em inglês Yes. E disse que iria para a casa do meu irmão. Então esse senhor chamou um taxi, e disse para que ele me levasse a ‘Casa Dois Irmãos’, porque eu era irmão do senhor Mamed. E, no taxi, um jipe daquela época, descemos aquela ladeira do Palácio do Governo, pois a loja era na José de Alencar. Ai o taxista olhou assim para mim, querendo dizer que a loja estava fechada, e eu fiquei calado. Mas, como eu conhecia o endereço e sabia que era ali, desci, e olhei que a porta estava somente encostada. Ao abrir, vi meu irmão, nos abraçamos e juntos ficamos chorando de emoção. E o taxista até disse coitado desses turcos, estão chorando de alegria. Aqui, no Almanara, eu conheci muitos políticos, quase todos os governadores: Paulo Leal, Marcos Henrique, o Olavo Pires, que fez o anuncio da sua candidatura aqui nessa mesa (apontando para mesa onde estávamos para entrevista). Quase todos os governadores entraram aqui.

De 1965 para cá, os governadores quase todos visitaram nosso restaurante Almanara. Até o governador Jorge Teixeira veio aqui e sempre mandava buscar comida aqui. Os deputados federais estiveram aqui também, Jerônimo Santana, foi chamado de deputado pela primeira vez aqui. E praticamente quase todos os políticos daquela época, e alguns atuais já estiveram aqui também.

Teve outro grande amigo que esqueci, mas agora gostaria de lembrar, que é o senador Valdir Raupp e a deputada federal Marinha Raupp. Sempre freqüentaram aqui o nosso restaurante e também a nossa casa. E afirmo que sem nenhum interesse político ou coisa parecida. O prefeito Mauro Nazif, que também é nosso patrício. Sempre o apoiamos, mas nunca nenhum dos nossos foram pedir cargo público ou nada desse tipo a ele e nem a ninguém.

Expressão Rondônia – Em sua opinião, a economia de Porto Velho esta melhorando ou piorando depois da construção das usinas?

Hamed Kassem – Porto Velho sempre cresceu bastante, e sempre melhorou. Quando cheguei a Porto Velho não chegava a ter dez mil habitantes e a cidade só chegava até o Quilometro Um. Conheci todos os prefeitos, alguns que nem são lembrados hoje. Mas Porto Velho sempre cresceu. Melhorou antes e depois das usinas também.

Expressão Rondônia – Sua clientela aqui é só das pessoas de Porto Velho ou também de turistas?

Hamed Kassem – Graças a Deus, Porto Velho toda já esteve aqui no Almanara. Acho que talvez não exista uma família daqui, que nunca veio ao restaurante Almanara. Antigamente os viajantes que vinham para cá para vender as coisas, todos passavam aqui no Almanara. Naquele tempo, os representantes tinham que vir aqui, pois não tinha internet nem as facilidades de hoje. Acredito que o Almanara seja conhecido praticamente no Brasil inteiro.

Expressão Rondônia – A que o senhor atribui a fidelidade da clientela?

 Eu sempre falo para os meus filhos e para os sobrinhos e amigos que tem gente que, graças a Deus, se não comer todo dia se quer um charuto aqui, parece que não se sente bem.

Então, primeiro acredito que é em razão da qualidade, e porque desde o inicio até hoje os nossos pratos são os mesmos, sempre feitos da mesma maneira, e pelas mesmas mãos. Então, quem gostou e se acostumou com a nossa comida sempre volta e come da mesma maneira. E o Almanara está sempre aberto para recebê-los. Nunca fechamos. Estamos sempre abertos aos finais de semanas e feriados e a qualquer hora do dia.

Expressão Rondônia – O senhor já citou figuras importantes de nossa história, como o senador Olavo Pires, que o senhor disse que em uma reunião aqui no Almanara anunciou sua candidatura a governador.

Hamed Kassem – Ele lançou, e também fez a ultima reunião antes das eleições, com todos os que apoiavam sua campanha aqui. Ele me disse que seria por uma questão de amizade, companheirismo e gratidão.

Expressão Rondônia – O senhor se dava bem com o Olavo Pires e com outros políticos?

Hamed Kassem – Ele sempre foi meu amigo.

Expressão Rondônia – E o que o senhor acha da morte do Olavo?

Hamed Kassem – Isso é complicado. Nem a Policia descobriu de fato ainda. E eu gosto de ler, e de política. Mas politicamente não gosto de me intrometer não. Chiquilito Erse foi outro que cresceu aqui, vivia com nossos filhos aqui. Depois foi deputado, foi prefeito, foi tudo que quis ser. Mas nunca deixou de vir aqui ao Almanara. O Odacir Soares também e todos os prefeitos. Famílias antigas, como a do doutor Gondim, doutor Ary Macedo, doutor Rafael Vaz e Silva, o governador Bianco e todas essas pessoas estiveram aqui conosco. E atualmente também. O governador Confúcio Moura e seu irmão sempre estão aqui. Na verdade o Almanara se tornou a casa de todos os rondonienses.

Expressão Rondônia – Ouve algum momento que alguém da família tentou ingressar na política. O senhor teve um sobrinho que chegou a ser vereador?

Hamed Kassem – Sim o meu sobrinho Jamil fez campanha junto com Olavo Pires, e foi candidato a deputado estadual e chegou a ser suplente. Mas, infelizmente ele logo faleceu. Depois, o irmão dele Jamil, pegou a mesma sigla e acabou ganhando para vereador. Mas ele não quis mais. Achou que a política não combina com o estilo da nossa raça, da nossa família mesmo.

Expressão Rondônia – O Almanara é realmente um empreendimento familiar. O senhor acha que esse é o segredo do negócio?

Hamed Kassem – Eu tenho certeza que é isso. No Almanara temos funcionários que se aposentaram aqui, depois de trabalharem longos anos. Todos sempre ficam anos e somos uma família que entende o que cada um quer e que cada um precisa. Somos uma família para cuidar da sua família.

Expressão Rondônia – Apesar da sua vivencia no Brasil, existe uma relação sua com os problemas vividos no Oriente Médio, sobretudo, na questão do Líbano, que sofre atentados terroristas, muitos conflitos e violência?

Hamed Kassem – Nós sempre nos preocupamos, não só com o Líbano, mas com toda aquela região, pois atualmente a política internacional, especialmente a das Nações Unidas, não está trabalhando honestamente. Está favorecendo um e desfavorecendo outro. Porque a nação do Oriente Médio foi esmagada, ou separada pelo imperialismo depois da guerra mundial, para conseguir dominar aquela região, que é uma região potente e rica. Da mesma maneira que eles destruíram o Iraque, o Afeganistão, a Palestina, o Egito e a Líbia. E porque os outros países estão destruindo essas nações? Porque elas são ricas e eles querem dominá-las. Esse é o pensamento dominador de algumas nações. E o capitalismo, o socialismo e o imperialismo, em discordância, acabam gerando isso e destruindo nações como a Turquia, que anda sofrendo com isso. A África e outros países também são exemplos de países que sofreram com o domínio e a ganância de muitos ocidentais. Então, nós que somos do Oriente Médio e somos pessoas civilizadas, nos preocupamos com essas questões que vêm acontecendo e gerando sofrimento a muitas pessoas.

Expressão Rondônia – O senhor acha que foi um erro da ONU impor a criação do Estado de Israel, lá em 1946?

Hamed Kassem – Foi um erro sim, com toda a Palestina, e o povo palestino, que é formado todo de Judeus. Árabes e palestinos, que viviam em paz até criarem aquele estado, só para judeus. E quem são esses judeus: aqueles que foram expulsos da Alemanha da Tchecoslováquia, da Bósnia, da Hungria e da Russia. Aqueles que não queriam que os judeus vivessem lá, o que fizeram? Expulsaram para a Palestina, porque a origem dos judeus é a Palestina e por isso formaram e deram o nome daquela área de Israel. Antes, lá só existia a Palestina e judeus e árabes viviam unidos e bem. Ainda hoje os judeus orientais vivem bem com os palestinos. Por exemplo, no Líbano têm judeus e eles vivem perfeitamente bem. Mas criaram essas confusões ai, e depois aquelas guerras entre israelenses e árabes, e aquela destruição. E assim criaram aquele ódio. Infelizmente, eu me sinto muito mal com isso ai.

Expressão Rondônia – Vivendo há 50 anos no Brasil, hoje o senhor ainda tem certo ódio pelos israelenses?

Hamed Kassem: Não, eu não tenho ódio aos israelenses. Sempre falo que a criação de Israel criou ódio contra aquele povo, porque no livro sagrado, os árabes e os judeus são primos, um descendente de Ismael e outro de Isaque. E porque essa confusão entre um povo só? É como briga de irmãos. Penso assim.

Expressão Rondônia – Para finalizar, qual é a mensagem de Hamed para as famílias de nossa cidade, e para o povo árabe de nossa região?

Hamed Kassem: A minha palavra é só de agradecimento aqui para o povo de Rondônia e para o Brasil, porque me considero brasileiro também, além de ser rondoniense. Em especial a Porto Velho, que nos acolheu e onde nós fizemos amigos e nos tornamos uma família, dentro da família porto-velhense. E nós sempre agradecemos a todo o povo de Porto Velho, aos nossos amigos, e a você, Carlos Araújo, que também é nosso amigo e sempre nos prestigiou. Sempre estaremos aqui à disposição e de coração aberto.

Expressão Rondônia – O senhor sempre costumar retornar e ao Líbano?

Hamed Kassem – Sempre não. Fui duas vezes, mas tenho vontade de visitar mais. Também para visitar o túmulo de nossos pais.

Expressão Rondônia – Muito obrigado pela entrevista.

Hamed Kassem – Obrigado a você.