José Hiran da Silva Gallo

Tragédias relacionadas à violência são alertas de que algo vai mal na sociedade. É o caso do atirador que matou quatro pessoas e depois se suicidou dentro de uma igreja, em Campinas. A polícia ainda apura os motivos, mas indícios preliminares apontam a existência de quadro comum e que, sem tratamento, pode levar a episódios dramáticos.

Falamos da depressão: uma doença silenciosa, negligenciada e absolutamente democrática, que pode atingir jovens e idosos, homens e mulheres, ricos e pobres. No caso, Euler Fernando Grandolpho, o responsável por todas as mortes na igreja, em Campinas, era vítima desse transtorno psiquiátrico.

De homem “cabeça”, de “beleza estupenda” e “muito inteligente”, como descrito por conhecidos, passou a ser uma cópia pálida de si mesmo: recluso, retraído e apático. “Houve algum problema com ele, com certeza, porque ele não tinha nada de criminoso”, concluiu um de seus primos aos jornalistas, ainda estupefato com o ocorrido.

Talvez as apurações em andamento ajudem a identificar o fator exato que detonou essa explosão de fúria. Contudo, uma coisa é certa: os sintomas depressivos ajudaram nesse processo.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) informam que a depressão afeta 322 milhões de pessoas no mundo. De acordo com a última análise divulgada, em 10 anos (de 2005 a 2015) esse número cresceu 18,4%. Em nível mundial, esse transtorno acomete 4,4% da população do planeta.

Estimativas mostram que, no Brasil, 5,8% da população sofrem com o problema, ou seja, aproximadamente 11,5 milhões de pessoas que, como Euler Fernando Grandolpho, podem estar ao nosso lado, em sofrimento, sem que nos demos conta.

Para se ter uma ideia do tamanho do problema causado pela depressão, basta analisar com calma as projeções. A OMS estima que o Brasil é o país com maior prevalência de depressão da América Latina e o segundo nas Américas. Na liderança desse triste ranking estão os Estados Unidos, com estimados 5,9% de seus habitantes com quadros depressivos.

Além dos Estados Unidos, Austrália (5,9%), Estônia (5,9%) e Ucrânia (6,3%) são países com prevalência de depressão maior do que o Brasil. Não se pode ignorar que esse quadro está diretamente relacionado à recente epidemia de suicídios, outro grave problema de saúde pública.

Cerca de 800 mil pessoas se matam por ano, segundo a OMS. Isso significa um suicídio a cada 30 segundos. No mundo, a taxa de mortalidade por conta desse transtorno é de 11,4 casos para cada grupo de 100 mil habitantes. No Brasil, esse índice fica em 6 mortes a cada 100 mil pessoas, o que o coloca em oitavo lugar nas estatísticas internacionais.

Com esta reflexão não se busca absolver ou condenar o responsável pelas mortes em Campinas. Seu ato foi grave e repercutirá na vida de várias famílias, sendo que as sequelas serão sentidas não apenas por parentes e amigos, mas por toda comunidade que terá que aprender a conviver com as cicatrizes deixadas.

Porém, o que aconteceu – e que poderia ter se passado em qualquer outra cidade do País ou do mundo – demonstra a necessidade de se conscientizar pessoas e governos sobre a importância do tratamento de doenças mentais e de problemas psicológicos, em especial da depressão.

Pessoas que enfrentam dilemas na vida pessoal ou no trabalho, que consomem drogas e álcool e têm comportamento emocionalmente instável podem ser vítimas da depressão. Inclusive, períodos de confraternização, como Natal e Ano Novo, são momentos em que crises se estabelecem.

É perfeitamente normal sentir-se triste ou chateado com determinadas situações. Contudo, pessoas depressivas precisam de ajuda profissional para superar essas dificuldades. Caso esteja nesta situação ou conheça alguém (colega, amigo ou parente) que precise de ajuda, busque um diagnóstico médico para que o tratamento comece o mais rápido possível.

Ao fazer isso, contribui-se para que tragédias pessoais e coletivas não voltem a acontecer e, sobretudo, dá-se um importante passo para prevenir doenças, cuidar da saúde e valorizar a vida.

*Diretor-tesoureiro do Conselho Federal de Medicina; doutor e pós-doutor em Bioética