Mara Paraguassu

De novo, a pátria enxovalhada. Justamente na semana verde-amarela, quando comemoramos uma independência que entre todas as conotações dadas pelo dicionário não se consagra a ausência de subordinação na alma da brava gente brasileira.  

Obedientes e submissos, seguimos contribuindo com cinco meses de trabalho para pagar impostos, com a contrapartida de serviços ineficazes, e sem nenhuma surpresa, de tanto ver triunfar a corrupção, a imagem que vale mais do que mil palavras em notas que já alcançam mais de 30 milhões de reais varre a rede social, mas não resulta na imediata prisão cautelar de Gedel Vieira Lima, investigado que cumpre prisão domiciliar.

Ninguém pediu, nada aconteceu, ninguém vai para as ruas, e talvez muito confortavelmente o ex-ministro vá continuar por um bom tempo.

A Polícia Federal chegou ao tesouro de Gedel por meio de um telefonema anônimo. Oito malas e quatro caixas abarrotadas de dinheiro compõem o cenário mais recente da República que ora parece querer dar um basta a tudo isso e ora parece que não. Os sinais se invertem ao sabor das conveniências políticas, cidadão militante ou não em defesa desse ou daquele que enxovalha o país de um jeito ou de outro, a cada dia.  

Fissura

Com o áudio de 4 horas gravado pela dupla alcoolizada Joesley Batista e Ricardo Saud, o Ministério Público Federal ganhou uma fissura – não diria irreversível – na credibilidade conquistada com ações da Lava Jato. Se dúvida para mim, já não havia em relação a controversos pontos que permitiram a indevida colaboração premiada pactuada com empresário que é réu confesso de mais de 200 crimes, alvo de cinco investigações pela Polícia Federal, cresce a desconfiança em relação à conduta de Rodrigo Janot.

O áudio teria sido gravado no dia 17 de março, e num dos trechos Joesley se vangloria:

“Não tem nenhuma chance. Nenhuma chance. Sabe qual a chance de eu ser preso? Nenhuma. Zero. Não precisa dar explicação nenhuma. Por quê? Porque não vai. Não tem nenhuma chance. Queria tranquilizar todo mundo, eu não vou ser preso, ninguém vai ser preso.”

Não é que veio depois a imunidade penal?  Vantagem inacreditável, concedida por Rodrigo Janot, que diz haver revelações “gravíssimas” no áudio da hora, que enxovalha a nação com deprimentes diálogos sobre autoridades da justiça e da política, enxovalhando também a língua portuguesa.

Flechada de bambu

Rodrigo Janot, prestes a deixar o cargo, para boa parte da fervilhante rede social enxovalhou seu nome. Deu uma flechada de bambu no pé.

Teria pleno conhecimento de negociações feitas pelo procurador Marcelo Miller com os executivos, quando seu auxiliar ainda estava no cargo e no gabinete da Procuradoria Geral da República, pedindo demissão após firmado o acordo de colaboração premiada para trabalhar em um escritório de advocacia que tocava a leniência do grupo JBS.

Jogos da esperteza

Ah, Gilmar Mendes anda sem moral para dizer que o áudio é tudo “armação” de Rodrigo Janot para atingir o STF. E o enxovalhamento patrocinado por Carlos Nuzman? Menos notinha$ encontradas em casa, mas igualmente ofensivas. As tramoias olímpicas eram previsíveis e evitáveis, mas a alegria incontida da brasilidade preferiu distração com os jogos da esperteza.        

Assim caminha a pátria amada Brasil.

Email: maraparaguassu1@gmail.com