Montezuma Cruz

De tempos em tempos, criam-se comitês antiviolência, delegacias agrárias, unidades mistas, colocam a polícia em zona conflagrada no chão e nos morros, evitam-se alguns motins em presídios. Atualmente, o Exército Brasileiro entra nos presídios e nos quais, diuturnamente, a “oficina do diabo” prospera em todo tipo de malfeito.

Constantemente, famílias choram seus mortos na enorme tragédia social. Vivemos o anteato da destruição do ser humano pelas mãos dos seus próprios semelhantes. Como dói repetir informações, lamentar essa mesma tragédia!

A reportagem de Marco Antônio Carvalho, enviado especial de O Estado de S. Paulo a Recife, revela a entristecedora somatória de crimes de homicídio no primeiro semestre deste ano: 27 mil.

Sob qualquer ponto de vista, o paradoxo espanta e atormenta. Três anos atrás notávamos sensível melhora das condições de vida do País. O desemprego caía à metade, o salário subia gradativamente para 36 milhões de cidadãos retiradas da extrema pobreza.

Paralelamente, noticiava-se a elevação dos gastos em segurança pública. Em julho de 2014, estados investiam em tecnologia, equipamentos, treinamento. A soma desses fatores deveria ter se refletido na queda dos índices de criminalidade. Infelizmente, não foi o que aconteceu.

Em Porto Velho, para guarnecer palácios, sedes de poderes e alguns órgãos públicos, temos, no mínimo, seiscentos homens fora da rotina preventiva sempre planejada e ambicionada pela Polícia Militar. Até mesmo oficiais são escalados para essa vigilância. E não se resolve há anos essa situação.

No País, a cada ano, as maiores taxas de assassinatos em termos absolutos do mundo nos garantem o “campeonato de homicídios”, título constrangedor para governantes, parlamentares, juízes, promotores de justiça.

Prestemos atenção em alguns dados da década: segundo o coordenador da área de Estudos sobre Violência da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), o sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, o comportamento da taxa de homicídios no Brasil revela  que, mesmo onde for contida a sangria, há que se melhorar os indicadores.

Nos anos 1980, a taxa por 100 mil habitantes dobrou. Na década de 1990, subiu 20%. De 2002 a 2012, cresceu “apenas” 2,1%, embora entre 2011 e 2012 a situação tenha destoado e saltado 7%.

Ele descreve a situação como “epidemia de homicídios”. “Morreu mais gente assassinada no Brasil, diz Waiselfisz, do que em todas as principais guerras da década passada, incluídas as do Iraque e Afeganistão”. O perfil médio das vítimas é de jovens entre 15 e 24 anos, negros, moradores da periferia e do sexo masculino, padrão mais ou menos tradicional.

A reportagem de Marco Antônio Carvalho mostra isso. A novidade deu-se na geografia. Se nos anos 1980 e 1990 os casos concentravam-se nos grandes centros e nas capitais, na última década tomou conta de regiões menos desenvolvidas.

Em 2002, a lista dos cincos estados com as maiores taxas de homicídio era liderada e dominada pelo Sudeste: Rio de Janeiro, Espírito Santo, Pernambuco, Rondônia e São Paulo, pela ordem. Após uma década, é liderada e dominada pelo Nordeste: Alagoas, Espírito Santo, Ceará, Bahia e Goiás.

Ainda Waiselfisz: “Entre as explicações para o fenômeno estão a interiorização do desenvolvimento da economia, o que atrai migrantes e dinheiro para cidades com um aparato de segurança pública mais débil, e o próprio combate da violência nos grandes centros, como Rio e São Paulo, o que forçou certa fuga de delitos rumo a outras regiões”.

De todas as mazelas com as quais nos deparamos – refinanciamento de grandes dívidas, bilionária sonegação de tributos, falta de escolas, aumentos escandalosos de salários e penduricalhos de autoridades, alastramento das drogas, corrupção em diversos escalões e com diferentes naipes, cinismo, soberba, falta de Deus – é possível deduzir: há um Apocalipse em conta-gotas caminhando em direção a cada um de nós.