ARIQUEMES – Na entrada do prédio da administração da Femar Refrigerantes, nove quadros emoldurados expõem alvarás, certificados e missão da empresa. Na sala do diretor, dois pôsteres mostram a indústria do empresário José Vilas Boas. Ali são fabricados refrigerantes. Duas minas de água mineral enriquecem o terreno da fábrica. A aceitação do energético Blue Ray aumenta a cada mês, o Frisky em seis sabores vende longe. A Femar fica em Ariquemes, a 200 quilômetros de Porto Velho.

A movimentação de caminhões no pátio da empresa, no Setor Industrial impressiona. No dia em que visitamos a Femar, o vaivém de cargas abrangeria o leque de mercado consumidor desde Mato Grosso a Roraima. Um cenário assim “mais povoado” do que nos tempos da Vila Ariquemes, onde muitos ali “começaram a vida” em Rondônia.

Paranaense de Cruzeiro do Oeste [noroeste daquele estado, 21 mil habitantes], José Vilas Boas conta um pouco de sua vida na ENTREVISTA DA SEMANA.

Expressão Rondônia – Qual o mercado de seus produtos? Para quem o senhor fornece?

José Vilas Boas – A Femar vende hoje para muitos lugares. Em Mato Grosso, Goiás, atravessamos todo o norte e noroeste e já alcançamos a fronteira brasileira com a Venezuela. O plástico resistente (pet) para as garrafas vem do Amazonas, Paraná e Santa Catarina. Cuiabá fornece as latas para o energético. A rotulagem é nossa. [Nota: o pró-forma é o plástico moldado nas cores verde, branco e azul recebe o sopro automático. Milhares de unidades entram na linha de produção e, em fração de segundos, deixam de ser pequenos tubos para ganhar forma de garrafas].

O refrigerante é o carro-chefe, mas a água nunca foi tão necessária. Antes do senhor falar deles, fale do sucesso do Blue Ray.

Durante um jantar em Ariquemes, um médico me indagou: esse Blue Ray é daqui mesmo? Pensei que fosse nacional. E a gente vendia mais baratos que o principal concorrente [Red Bul, que tem mais tempo de mercado. Atualmente, o consumo de energéticos cresce entre bebidas não alcoólicas no País. [Nota: suas vendas superam R$ 1,4 bilhão por ano e tendem aumentar,  estudo da consultoria Nielsen]

O consumo de energéticos é igual ao dos Estados Unidos?

Se nós compararmos bem, o nosso ainda deixa a desejar. Nos Estados Unidos, o consumo per capita [por cabeça] de energéticos é perto de cinco litros por ano, já por aqui, fica na média de apenas meio litro por ano. 

O refrigerante que chega além-fronteiras

Antes da fábrica o senhor trabalhou com quê? De que maneira começou seu negócio?

Fui transportador de secos e molhados para a empresa atacadista Santa Rosa, viajei muito pela Amazônia num caminhão Mercedes modelo 1111, o mesmo que transportou a mudança da minha família desde Cruzeiro do Oeste (PR). Foi daqui o meu conhecimento das dificuldades que caminhoneiros do Brasil enfrentavam. Andei na BR-319 por trechos esburacados, alguns alagados, levando cargas de banana para Manaus.

O senhor veio lá do Paraná, estado que mais mandou migrantes para cá…

Sim, eu nasci em Cruzeiro do Oeste (PR), e vim pro território federal em 1979. Nem precisa dizer que tinha floresta pra todo lado, né? Viemos direto pra Vila Ariquemes. As casas, o cinema, as igrejas e prédios públicos de madeira. O Teixeirão [governador Jorge Teixeira de Oliveira] visitava a cidade e os empresários cercavam ele, até que um dia ele avisou: olhe, eu vou voltar mais vezes, vocês não precisam se reunir toda vez que eu chegar aqui.

Como foi a ideia da fábrica?eiNo começo era apenas uma fabriqueta no antigo bairro BNH, hoje temos 260 empregados; destes, 210 na sede, e o restante em Jaru, Ji-Paraná, Porto Velho e Vilhena. Mas faz 23 anos que eu tive noutro ramo, o Laticínio Arilac. Tinha fornecedores em Campo Novo, Buritis e Montenegro, e eles me garantiam 120 mil litros dia.

Femar, vista do alto

Por quê Femar?

São as iniciais dos nomes dos meus três filhos: Fernando, Marcelo e Alexandre. Todos trabalham com ele. Nosso primeiro produto foi o Tampico. Em seguida veio a Puragua [água mineral] e depois o Frisky, refrigerante em seis sabores: cola, guaraná, groselha, friskbaína, laranja e uva. [Nota: o Tampico é marca franchising do suco original americano de Chicago, Estados Unidos].

A água vende bem? 

Vende. Um engenheiro de alimentos dos Estados Unidos veio aqui, analisou as minas d’água no terreno, constatou boa qualidade e me recomendou envasar. São duas minas boas, fontes artesianas que rendem 60 mil litros por hora. A Femar também representa o Latco chocolate, de Cruzeiro do Oeste, e o “Nosso coco”, de Paraipaba (Ceará). E fabricamos gelo aqui dentro [mostrando-nos a operação]: 25 toneladas/dia, tudo adquirido por frigoríficos pesqueiros e pelo comércio em geral.

Como é a programação das vendas dos seus produtos?

O mercado do Tampico se distribui entre o Acre, Rondônia, Mato Grosso e Roraima. As vendas da Puragua e do Frisky se concentram em Rondônia e a aceitação é muito boa. O Blue Ray chega a Manaus.

O refrigerante é mais regional, barato, e não adiantaria levar para o Acre, nem para o Amazonas, porque eles têm os deles; mas a água vale a pena, eu já senti isso, porque cheguei a Cruzeiro do Sul (AC), na fronteira com o Peru, e senti que os peruanos aceitam esse produto lá.

Onde mais seus produtos chegarão?

Se confirmar estudos de mercado, podemos contar com razoáveis fatias de mercado para água também na fronteira brasileira com a Venezuela, em Roraima. No começo do ano passado eu estive no Peru e vi que podemos entrar, apesar do protecionismo deles à indústria local.

Vilas Boas com os filhos, na sala da administração da Femar

Um pouco antes, em 1998, eu fiz parte da comitiva de nove empresários rondonienses e nove acreanos em visita ao Peru. Participamos de dez reuniões, colocaram banda e tapete vermelho para nós.

E o futuro?

Olhe, outros estados passam por momentos difíceis na economia. Nós, aqui, não estamos no sonhado mar de rosas, mas estamos à frente de alguns desastres. Não estamos no céu, é verdade, mas também não estamos no inferno. Eu e, acredito, tantos outros empresários, acreditamos que o Brasil precisa recuperar a credibilidade.

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