José Hiran da Silva Gallo

PORTO VELHO – Normalmente, a população associa a medicina ao pleno sucesso. Os médicos são vistos como homens e mulheres com excelente remuneração, qualidade de vida acima da média e com grandes possibilidades de crescimento pessoal e profissional. Isso cria enorme pressão social em torno desses indivíduos: sua família lhes cobra êxito, seus pacientes exigem atenção e os gestores (públicos e privados) acham que não precisam oferecer nada mais.

No entanto, neste 18 de outubro, data em que se comemora o Dia do Médico, quero lhes contar algo que aprendi ao longo de mais de 40 anos de exercício da medicina, nas mais diferentes funções: nem tudo é como parece, ou seja, o médico, profissional de alto valor e que deve ser reconhecido por todos, é um ser humano que convive com limites e que precisa de apoio como qualquer outro.

Com respeito à remuneração é preciso deixar claro que nem de longe o médico recebe o que deveria, se levarmos em conta os anos de estudo, dedicação e de contínuo aprendizado, sem contar a responsabilidade pessoal e intransferível por todos os seus atos. Na verdade, para ter um rendimento mais significativo, ele tem que se desdobrar em três ou mais empregos, dar um grande número de plantões e trabalhar até 80 horas por semana.

A soma de todos esses esforços no fim do mês nem sempre cobre o grande desgaste físico e emocional ao qual é submetido.  No cotidiano, as dificuldades se manifestam: a família passa a conviver com suas ausências justificadas, não tem tempo para se divertir com os amigos e a sua própria saúde fica em segundo plano. Muitas vezes, esse médico sobrecarregado começa a ter problemas que se refletem no corpo e até na mente, com o desenvolvimento de quadros depressivos e de fadiga crônica.

Além dessas dificuldades que poucos percebem, o médico, peça-chave na assistência da população, é vítima de más condições de trabalho e de atendimento, que o penalizam, assim como aos seus pacientes. Por exemplo, em Rondônia, é o que ocorre com os profissionais que atendem no Hospital João Paulo II, sucessivamente denunciado pela sua infraestrutura precária.

O pior é que o paciente, vulnerável em sua dor, e não encontrando o gestor nos plantões e nas salas de emergência, começa a ver no médico o corresponsável pelo seu incômodo. Infelizmente, os verdadeiros culpados pelo quadro de abandono preferem deixar que essa transferência se complete para se livrarem das cobranças.

o médico, peça-chave na assistência da população, é vítima de más condições de trabalho e de atendimento, que o penalizam, assim como aos seus pacientes

Nessas situações, mais uma vez o médico vive uma realidade distante daquela é idealizada na televisão e nas conversas em família. Contudo, o médico, apesar desse quadro adverso, é um profissional forte, que sobrevive às intempéries, capaz de oferecer aos seus pacientes e familiares o máximo de sua dedicação para salvar vidas e melhorar a saúde de indivíduos e de comunidades inteiras. São profissionais com uma missão diferenciada, apaixonados pelo ser humano, moldados em valores e compromissos éticos sólidos.

Por tudo isso, convido a população a ver no médico um amigo, um aliado, um companheiro de jornada em busca de um País melhor. Trata-se de um profissional que merece um abraço não apenas em sua data comemorativa, mas todos os dias. Mais do que isso: é importante ouvir suas orientações e entender as causas que defende, pois o faz também pelo interesse coletivo.

É assim que ocorre quando o médico cobra por mais leitos e exige medicamentos para seus pacientes. Lógica semelhante acontece ao defender que toda pessoa que tem diploma de medicina obtido no exterior só possa atender no Brasil após ser aprovada em exames do REVALIDA, que medem seu grau de conhecimento, competência e habilidade para cuidar da população.

Em gestos assim, o médico comprova seu compromisso com o outro. Certamente, a gratidão dos seus pacientes e familiares – manifestada em gestos de carinho e de confiança em suas recomendações – será combustível para os médicos brasileiros, em especial os rondonienses, manterem seu ânimo, força e fé no cumprimento de sua missão diária em defesa da vida e da saúde.

*Diretor-tesoureiro do Conselho Federal de Medicina; pós-doutor e doutor e em Bioética